Se der, amar
Escrever é como se derramar no papel. Eu escrevo com o coração nas mãos e não tenho dúvidas de que é o fluxo entre derramar e receber que faz ele bater.
Escrever é uma transfusão de sangue para o lado de fora, foi Saramago quem escreveu. Será que a vida é feita de escrita, palavras e significados que damos para tudo ao nosso redor, ou se é a escrita quem é feita de vida? Escrever é mesmo como se derramar no papel, viver é como se derramar nos dias e algumas pessoas apenas sobrevivem por ficarem extremamente contidas em si mesmas, sob a própria pele, ensimesmadas.
Eu gosto de quem se espalha vida afora feito tinta no papel e caneta no caderno, de quem contém arte dos pés à cabeça e parece aquarela quando acessamos o lado de dentro. Esses dias enxerguei bem dentro de você e achei bonito, esses dias li nos letreiros que davam para a sua rua: contém amor. Acordei querendo que fosse verdade e de repente vi que era: não o dia todo, mas todos os dias.
Amar é um transbordamento de tudo que tem dentro do outro em nós mesmos, como se fosse uma escrita num papel. Os outros que amamos não nos preenchem, não preenchem nossos vazios. Recíproco ou não, os recipientes de cada um que ama são sempre diferentes, os vazios também.
Não acredito em metade da laranja, ninguém transborda na medida certa do outro, mas há aqueles que se derramam numa frequência e intensidade que resulta em uma melodia bem bonita quando cai em nós e os tímpanos sempre esperam por ouvir mais e mais. Amar é fazer todos os dias, não o dia todo: o amor enquanto uma construção diária. Talvez seja sobre isso que Bell Hooks quis dizer, quando escreveu:
“A palavra ‘amor’ é um substantivo, mas a maioria dos perspicazes teóricos dedicados ao tema reconhece que todos amaríamos melhor se pensássemos o amor como uma ação”Busco palavras que eu poderia usar para te dizer que meus tímpanos anseiam por ouvir aquilo que você transborda, enquanto eu também saio das minhas bordas - meus limites imaginários - e você me ouve com cada poro da sua pele. Tento adivinhar quais sílabas pingam fora dos recipientes eu-você e quais delas ecoam por todos os cantos adentro. Seria essa uma via de mão dupla? Eu me derramo e você se derrama também. Se der, amaremos um pouco por dia, não o dia todo, pois cabem outras coisas na nossa vida (ufa!), mas todos os dias.
Escrevo com o coração nas mãos e não tenho dúvidas de que é o fluxo entre derramar e receber que faz ele bater.


A cada texto que você posta, mais me encanto pela sua escrita! 🤍
Que delicadeza!